JOAOZINHO SEM MEDO
Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)
Era uma vez um menino chamado Joãozinho-Sem-Medo, que não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e um dia foi parar num hotelzinho distante da cidade onde pediu um quarto para passar a noite.
- Aqui não tem lugar - disse o dono. Mas se você não tem medo de nada mesmo, pode dormir lá naquele palácio abandonado.
- Por que eu teria medo?
- Porque lá, todo mundo fica com medo! – Disse o dono do hotel. Ninguém nunca saiu de lá vivo. Toda a manhã a funerária leva um caixão para enterrar quem teve coragem de passar a noite lá.
Imagine! Joãozinho não tinha medo de nada. Pegou um lampião, uma garrafa de vinho, um pedaço de pão, um salame e lá se foi.
À meia-noite, ele estava lá, sentado na sala do palácio, bem tranqüilo comendo pão com salame, quando ouviu uma voz saindo da chaminé:
- Boto?
E Joãozinho respondeu:
- Qué bota, bota, uai!
Então, da chaminé caiu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho e nem deu bola prá perna sem corpo que ficou lá pulando que nem a perna perdida do saci-pererê.
Daí a voz tornou a perguntar:
- Boto?
E Joãozinho responde:
- Bota! Pode botar!
E caiu mais uma perna peluda de homem. Joãozinho comeu um pedaço de salame e nem olhou pras duas pernas de homem que caíram na sua frente.
- Boto?
- Bota logo! Disse Joãozinho
E a voz jogou mais um braço pela chaminé. Joãozinho começou a assoviar uma música. Fiuuuufiuiiifiuuuu...Fiuuuufiuiiifiuuuu
- Boto?
- Bota logo!
E caiu outro braço.
- Boto?
- Bota!
E caiu um corpo enorme. As pernas e os braços correram e se grudaram no corpo que caiu. E lá ficou aquele homem sem cabeça, na frente do Joãozinho...
- Boto?
- Bota!
E caiu uma cabeça horrível que ficou quicando no chão que nem bola e pulou em cima daquele corpo. Era um homenzarrão gigante e Joãozinho levantou o copo dizendo:
- Saúde, seu Bota! Quer um copo de vinho?
O homenzarrão muito sério e desajeitado disse:
- Pegue o lampião e venha.
Joãozinho pegou o lampião, mas não se mexeu do lugar.
- Venha! Disse o homem.
- Vai na frente - disse Joãozinho
-Vai você! - disse o homem
- Vai você! - disse Joãozinho
Então o homem passou na frente e foi passando de sala em sala e atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escada tinha uma porta.
- Abra! - disse o homem.
E Joãozinho:
- Abra você!
E o homem deu um empurrão na porta que se abriu fazendo um barulhão. Havia uma escada em caracol
- Desça - disse o homem
- Primeiro você - disse Joãozinho.
Desceram a um porão escuro, úmido, fedorenteo e cheio de teias de aranhas e baratas. Lá embaixo, o homem mostrou uma caixa que parecia um baú de pirata, bem grande, tampado com uma tábua de madeira bem pesada.
- Abra! Disse o homem.
- Abra você! - disse Joãozinho, e o homem levantou a tampa pesada como se fosse uma folha de papel.
Dentro da grande caixa, havia três potes cheios de moedas de ouro
- Leve para cima! - disse o homem
- Leve você! - disse Joãozinho. E o homem levou um pote de cada vez para cima.
E os dois voltaram para a sala do palácio de onde saiu aquele homem aos pedaços pela chaminé. Chegando lá o homem disse:
- Joãozinho, por causa da sua coragem a maldição foi quebrada! – E arrancou uma perna do corpo, e ela saiu esperneando pela chaminé – Um destes potes de outro é seu, Joãozinho. - Arrancou um braço, que foi subindo pela chaminé. – Outro pote é para a funerária que virá buscá-lo amanhã de manhã pensando que você está morto. - Arrancou outro braço, que foi correndo pra chaminé - O terceiro pote é para o primeiro pobre que passar na tua frente. – Arrancou a outra perna que foi pulando pra chaminé e o corpo caiu sentado no chão - Pode ficar com o palácio também.Não preciso mais dele - Arrancou o corpo e ficou só a cabeça pulando no chão. Eu era o último dono deste palácio, disse a cabeça. Agora vou me juntar aos meus parentes. Adeus! - E a cabeça saiu rolando e subiu, subiu até sumir pelo buraco da chaminé.
Assim que amanheceu, Joãozinho ouviu uma procissão de gente vindo em direção ao palácio cantando assim: Miserere mei, miserere mei. Era o pessoal da funerária que vinha com o caixão pra buscar o Joãozinho pensando que ele tinha morrido. Mas ele estava era bem vivo e deu um pote de moedas de ouro para o dono da funerária.
Dali a pouco passou um mendigo, muito muito pobre pedindo um pedaço de pão. Joãozinho deu a ele o outro pote de moedas de ouro.O mendigo saiu pulando de alegria.
Joãozinho-Sem-Medo ficou muito rico com o pote cheio de moedas de ouro que ganhou daquele homem que caía em pedaços da chaminé. E viveu feliz no palácio por muitos e muitos anos.
Até que um dia foi andar pelos jardins do palácio e viu sua pela primeira vez sua própria sombra no chão.Deu um grito e um pulo. E a sombra pulou junto. Joãozinho levou um susto tão grande, mas tão grande que caiu duro. E morreu de susto.
Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)