O TEU BEM FAZ-ME TÃO MAL







 


Mal por mal
Deolinda

Já sou quem tu queres que eu seja,
Tenho emprego e uma vida normal.
Mas quando acordo e não sei
Quem eu sou, quem me tornei
Eu começo a bater mal.
O teu bem faz-me tão mal!

Já me enquadro na tua estrutura.
Não ofendo a tua moral.
Mas quando me impões o meu bem
Eu ainda sinto aquém.
O teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal!

Sei que esperas que não desiluda,
Que por bem siga o teu ideal.
Mas não quero seguir ninguém
Por mais que me queiras bem.
O teu bem faz-me tão mal,
O teu bem faz-me tão mal!

Sei que me vais virar do avesso
Se eu te disser foi em mim que apostei.
Não, não é nada que me rale
Mesmo que me faças mal.
Do avesso eu te direi:
O teu mal faz-me tão bem!

JOAOZINHO SEM MEDO


Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)

Era uma vez um menino chamado Joãozinho-Sem-Medo, que não tinha medo de nada. Andava pelo mundo e um dia foi parar num hotelzinho distante da cidade onde pediu um quarto para passar a noite.

- Aqui não tem lugar - disse o dono. Mas se você não tem medo de nada mesmo, pode dormir lá naquele palácio abandonado.

- Por que eu teria medo?

- Porque lá, todo mundo fica com medo! – Disse o dono do hotel. Ninguém nunca saiu de lá vivo. Toda a manhã a funerária leva um caixão para enterrar quem teve coragem de passar a noite lá.

Imagine! Joãozinho não tinha medo de nada. Pegou um lampião, uma garrafa de vinho, um pedaço de pão, um salame e lá se foi.

À meia-noite, ele estava lá, sentado na sala do palácio, bem tranqüilo comendo pão com salame, quando ouviu uma voz saindo da chaminé:

- Boto?

E Joãozinho respondeu:

- Qué bota, bota, uai!

Então, da chaminé caiu uma perna de homem. Joãozinho bebeu um copo de vinho e nem deu bola prá perna sem corpo que ficou lá pulando que nem a perna perdida do saci-pererê.

Daí a voz tornou a perguntar:

- Boto?

E Joãozinho responde:

- Bota! Pode botar!

E caiu mais uma perna peluda de homem. Joãozinho comeu um pedaço de salame e nem olhou pras duas pernas de homem que caíram na sua frente.

- Boto?

- Bota logo! Disse Joãozinho

E a voz jogou mais um braço pela chaminé. Joãozinho começou a assoviar uma música. Fiuuuufiuiiifiuuuu...Fiuuuufiuiiifiuuuu

- Boto?

- Bota logo!

E caiu outro braço.

- Boto?

- Bota!

E caiu um corpo enorme. As pernas e os braços correram e se grudaram no corpo que caiu. E lá ficou aquele homem sem cabeça, na frente do Joãozinho...

- Boto?

- Bota!

E caiu uma cabeça horrível que ficou quicando no chão que nem bola e pulou em cima daquele corpo. Era um homenzarrão gigante e Joãozinho levantou o copo dizendo:

- Saúde, seu Bota! Quer um copo de vinho?

O homenzarrão muito sério e desajeitado disse:

- Pegue o lampião e venha.

Joãozinho pegou o lampião, mas não se mexeu do lugar.

- Venha! Disse o homem.

- Vai na frente - disse Joãozinho

-Vai você! - disse o homem

- Vai você! - disse Joãozinho

Então o homem passou na frente e foi passando de sala em sala e atravessou o palácio, com Joãozinho atrás, iluminando. Debaixo de uma escada tinha uma porta.

- Abra! - disse o homem.

E Joãozinho:

- Abra você!

E o homem deu um empurrão na porta que se abriu fazendo um barulhão. Havia uma escada em caracol

- Desça - disse o homem

- Primeiro você - disse Joãozinho.

Desceram a um porão escuro, úmido, fedorenteo e cheio de teias de aranhas e baratas. Lá embaixo, o homem mostrou uma caixa que parecia um baú de pirata,  bem grande,  tampado com uma tábua de madeira bem pesada.

- Abra! Disse o homem.

- Abra você! - disse Joãozinho, e o homem levantou a tampa pesada como se fosse uma folha de papel.

Dentro da grande caixa, havia três potes cheios de moedas de ouro

- Leve para cima! - disse o homem

- Leve você! - disse Joãozinho. E o homem levou um pote de cada vez para cima.

E os dois voltaram para a sala do palácio de onde saiu aquele homem aos pedaços pela chaminé. Chegando lá o homem disse:

- Joãozinho, por causa da sua coragem a maldição foi quebrada! – E arrancou uma perna do corpo, e ela saiu esperneando pela chaminé – Um destes potes de outro é seu, Joãozinho. - Arrancou um braço, que foi subindo pela chaminé. – Outro pote é para a funerária que virá buscá-lo amanhã de manhã pensando que você está morto. - Arrancou outro braço, que foi correndo pra chaminé - O terceiro pote é para o primeiro pobre que passar na tua frente. – Arrancou a outra perna que foi pulando pra chaminé e o corpo caiu sentado no chão - Pode ficar com o palácio também.Não preciso mais dele - Arrancou o corpo e ficou só a cabeça pulando no chão. Eu era o último dono deste palácio, disse a cabeça. Agora vou me juntar aos meus parentes. Adeus! - E a cabeça saiu rolando e subiu, subiu até sumir pelo buraco da chaminé.

Assim que amanheceu, Joãozinho ouviu uma procissão de gente vindo em direção ao palácio cantando assim: Miserere mei, miserere mei. Era o pessoal da funerária que vinha com o caixão pra buscar o Joãozinho pensando que ele tinha morrido. Mas ele estava era bem vivo e deu um pote de moedas de ouro para o dono da funerária.

Dali a pouco passou um mendigo, muito muito pobre pedindo um pedaço de pão. Joãozinho deu a ele o outro pote de moedas de ouro.O mendigo saiu pulando de alegria.

Joãozinho-Sem-Medo ficou muito rico com o pote cheio de moedas de ouro que ganhou daquele homem que caía em pedaços da chaminé. E viveu feliz no palácio por muitos e muitos anos.

Até que um dia foi andar pelos jardins do palácio e viu sua pela primeira vez sua própria sombra no chão.Deu um grito e um pulo. E a sombra pulou junto. Joãozinho levou um susto tão grande, mas tão grande que caiu duro. E morreu de susto.

Giovannin senza paura - Fábulas Italianas - coletadas por Ítalo Calvino (1923-1985)


monge,
che te fa bene!


RAUL POUGH
Dois Cães Vagabundos
para qualquer fêmea
rodei pelos calcanhares
rodei pelos bares
fazia calor, muito calor
cansei da noite, cansei do dia
um cão perdido me fez companhia
sentamos juntos na beirada da guia
no riacho ao lado nenhuma gia
a cantar, a brotar um solitário olá
apenas pairava no ar a magia
de estar ali na sala de estar
da cidade, da fantasia
eu e o cachorro a sua espera
na esperança de um olá
esperando sermos adotados
por um lar, por você
Tonicato Miranda
Curitiba, 3/11/2009


Conversa com um velho rio
(Marilda Confortin)


Toda vez que passo na frente daquele riozinho ele me diz:

- Passeando dona louca?

Jogo uma pedra nele e continuo minha caminhada.
Ele se enfia debaixo de uma pinguela e me provoca novamente:

- Ô dona doida, ainda não parou de falar com as coisas?

Nem tenho tempo de responder e ele já entra numa enorme manilha e se esconde outra vez.



Uma pedrinha curiosa se solta da mão da mãe e rola até meus pés para brincar.
A grande rocha, silenciosa, apenas observa.
Somos velhas amigas. Cúmplices dos tempos.



Um bando de garças adolescentes  faz cocô na minha cabeça.
Os bem-te-vis caem na gargalhada.
Um ipê amarelo, me chama de careca. 
Pode deixar... Eu me vingo na próxima estação...

Cumprimento uma velha roseira. Ela nem me dá bola.
Sempre esqueço que as rosas não falam.


Aqui era puro mato!
Agora não passa de um canteiro urbano.
Asfaltaram as trilhas, arrancaram árvores,  represaram o rio.
Por isso ele ficou sujo e malcriado desse jeito.
Antes, corríamos livres e conhecíamos cada pé de amora que morava aqui.
O pé de chorão e eu ficávamos horas debruçados sobre o rio ouvindo suas histórias de águas passadas.

Ele me chama de doida, mas quem perdeu o rumo foi ele.
Fizeram o pobrezinho engolir desaforo, desviaram seu curso,
Obrigando-o a andar escondido nas galerias subterrâneas da cidade, como se fosse um...  um marginal.
Represado, teve que se fingir de morto, de surdo, de mudo, de bobo... 

Ah... como se eu não te conhecesse de outros tempos, meu velho rio Belém...



- Vá tomar banho, sua doida varrida!

Não posso mais tomar banho contigo, querido. É proibido!
Não posso nem ficar aqui sentada te olhando.
É perigoso, sabe? Você ficou perigoso, venenoso, poluído...
E se me pegam falando com você, me internam num manicômio. 



Ele me chama de doida que fala com as coisas,  mas doidos mesmo, são aqueles que pararam de ouvir as coisas.
Os que calaram a gralha azul, cortaram nossas araucárias e plantaram pinus,
pra dar luz elétrica em vez de  pinhão.

Insanos mesmo, são aqueles que nos entupiram de lixo, esgoto, veneno, taparam nossa boca com pixe e nos condenaram a esse... esse barulho ensurdecedor.



O Rio Belém é um rio genuinamente curitibano e sua extensão é de 21 km. A nascente e a foz estão dentro de Curitiba. O rio nasce no bairro da Cachoeira e deságua nas cavas do Rio Iguaçu, no Boqueirão. Sua Bacia Hidrográfica abrange 35 bairros.
O Rio Belém passou por vários processos antrópicos que alteraram sua fisiografia, bem como sua hidrodinâmica. Na década de 1930 teve sua extensão retificada, onde um trecho do rio com 17,8 km passou a ter 7,2 km, no centro da cidade, área intensamente urbanizada, foi canalizado para dar espaço as construções. Teve suas margens devastadas e ocupadas irregularmente e lançamentos de esgoto são encontrados com freqüência por todo seu comprimento.
É o rio mais poluído da cidade. 
Já existem projetos para a revitalização do rio. Foi foi criado recentemente o Parque Nascente do Rio Belém, com mais de quarenta mil metros quadrados para preservar a natureza. Existem várias campanhas de despoluição do rio e demonstrações de carinho da comunidade como o "abraço ao rio belém" realizado anualmente cuja foto encerra este texto.





ORAÇÃO DA VELHICE
 


Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.
Sendo assim, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.

Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho
de querer pôr em ordem a vida dos outros.

Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando com modéstia a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante.


Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos e que só se preservam os amigos e os filhos... quando não há intromissão na vida deles.

Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias
e dá-me asas para voar diretamente ao ponto que interessa.

Não me permita falar mal de alguém.
Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças..
Elas estão aumentando e, com isso,  
a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada ano que passa.


Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria
a descrição das doenças alheias; seria pedir muito.
Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com paciência.

Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões.
Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçadoras e desagradáveis.

Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece de envelhecimento,
peço: mantenha-me o mais amável possível.

Livrai-me de ser santo(a).
É difícil conviver com santos!

Mas um(a) velho(a) rabugento(a), Senhor,
é obra prima do diabo!
Me poupe!!!
 
Amém!
(Desconheço o autor. Se alguém souber de quem é, favor me comunicar)
Cansado de Viagens
para Marilda Confortin





o ônibus, o caminhão, a estrada, a paisagem
Milton Santos na minha mão
a fazenda e verdes no meu olhar
nos ouvidos “Round Midnight” e um pistão

Chet Baker vai viajando-me os sentidos
morros e mais morros lá longe, na Terra
a paisagem de uma estradinha campesina
não a da Marilda, mas uma estrada de terra

verdes vão pontilhando meu olhar
um acordeon e argentinos nos ouvidos a castelhanear
mas o rio na minha visão é inteiramente brasileiro
verdes de doer a retina vêm se entregar

quais personagens me habitam?
para onde viajo tanto
singrando a pele do planeta
pra quê? se basta-me um só canto

qualquer dia desses salto no meio do caminho
e vou, como um boi indolente, tal uma rês
com saudades de todos vocês
mas vou, mas vou, e vou...

Tonicato Miranda
Interior de São Paulo
20/10/2009.





Obrigada pela homenagem, amigo Tonicato.
Sempre te imagino pedalando, não pelas ciclovias que você cria nesse nosso brasilisão afora, mas por uma estrada de terra que te leva a uma casinha na beira de um rio, com uma latinha cheia de minhocas, um caniço de bambu, um chapéu de palha, calças arregaçadas até quase no joelho, um livro da Helena Kolody debaixo do braço, uma expressão de paz no rosto e um sorriso maroto de menino que matou a aula para pescar.

Tonicado Miranda é um poeta curitibano. Tem vários trabalhos publicado. Foi um dos mais assíduos amigos da poeta Helena Colody. Foi livreiro. Hoje trabalha com citymarketing, desenvolvendo projeto de ciclovias para as principais cidades brasileiras.
POEMÍNIMOS DE TCHELLO 


Tchello d´Barros é poeta, escritor, artista plástico e ator catarinense, que começou a vida sendo premiado com desenhos, até realizar exposições no Brasil e no exterior, participa de antologias poéticas, publica livros, atua no teatro e milita nos mais diversos eventos culturais e artísticos. Nos conhecemos num desses encontros de poesia que ocorrem nesse Brasilsão. Atualmente Tchello mora em Maceió. 
 
corpo estranho...

insignificante cisco no meu olho
quando enxerguei,
ceguei.


ADOÇÃO



Adotei uma pequena Solidão abandonada, que me rondava há anos.

Eu a conheci numa madrugada insone e fria, quando ela bateu à minha porta e me pediu pouso.

Dividimos um livro, um cobertor e um pedaço de pão. Quando amanheceu ela saiu sorrateira.

Desde aquele tempo eu já abrigava um monte de ilusões malogradas, alimentava um cardume de sonhos e cuidava de um velho amor moribundo. Isso sem mencionar o esforço que eu fazia para arrastar um caminhão de esperanças perdidas, sustentar dúzias de projetos fracassados e tratar de um bando de menores problemas abandonados. Meu orfanato estava sempre cheio.

Mas, nos últimos tempos, a tal Solidãozinha começou a me visitar freqüentemente.
Aparecia em plena luz do dia e passava o fim de semana lá em casa. Quando ia embora, a pequena ladra sempre me roubava uma esperança ou uma das minhas ilusões preferidas.

Começou a trazer amigas para jantar, a folgada. Conheci Saudade, sua fiel escudeira. Interessante, faladeira, criativa. Contava cada história... e sempre me trazia uma lembrancinha de presente. Tristeza, sua outra amiga, entrava sorrateira e se escondia pelos cantos, quieta, na espreita, só esperando um velho amor morrer, para tomar seu lugar. Menina estranha, a Tristezinha. É só eu me descuidar e ela já fica toda espaçosa e se instala na minha cama.

Meus pupilos preferidos são o Silêncio e a Paz. A pequena Solidão se deu muito bem com eles.


À vezes, eu tranco todos esses filhos bastardos dentro de um baú e fujo para a rua. Vou me divertir um pouco com Alegrias Passageiras. Elas são tão lépidas e bonitas. Pena que são efêmeras como as borboletas. Em pouco tempo se transformam e terríveis lagartas, prendem a gente em seus casulos e nos devoram.

Acho que além da pequena Solidão, vou adotar também a Saudade, o Silêncio e a Paz. São bem mais fiéis e confiáveis que as Alegrias Passageiras.

ATO DE CONTRIÇÃO


Eu, pecadora, confesso:
Sou reincidente no amor.
Mas não mereço a pena
Careço é de pena, Meritíssimo!
Cristo disse:
“Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei”
... acreditei!


Poema de Cleci Rita Confortin. Minha irmã querida.


(extraído do blog http://aterraazul.blogspot.com)


In mezzo al mare

Imagem: Dali
Um brinde!

Poesia é uma Flor Bela que Espanca,
fere, maltrata.
Poesia quando ataca provoca cirrose,
divórcio, taquicardia, tuberculose...
Poesia mata!
Por isso, os grandes poetas estão mortos.
Por isso, os poetas vivos são assim tão... tortos.
Só loucos, vivem a poesia em sua essência.
Em sã consciência,
a hipocrisia desta vida é insalubre,
arde feito urtiga e é mais fria
do que a vodka Maiakowski que consumia Leminski.

Por isso eu ergo uma taça e brindo
a todos os malditos poetas,
seres vis, errados
vicerados pelo avesso,
não servis,
citados,
anônimos e abominados
que rabiscam e recitam seus manuscritos
pelos botecos,
sebos,
saraus e feiras
livres prisioneiros da poesia.

Aos benditos que publicam e são lidos
e aos amaldiçoados ficam empoeirados,
empoleirados nas prateleiras,
criando teia,
esperando que um dia alguém os leia.

Aos que travestem a poesia com barro,
tinta,  efeitos virtuais,
acordes musicais
e passam pela vida despercebidos.

Um brinde aos que partem cedo
com medo de verem suas almas
sendo dissecadas por críticos estúpidos.

Poesia é de quem precisa dela, já dizia Neruda.
Se você não precisa,
não leia,
não ouça,
não toque!
Ela é como um feto:
precisa de calor e útero
e não de um fórcipe obstetra.

E mais um brinde
a todos aqueles que atuam à luz do dia,
nesse imenso palco,
de paletó, gravata, saia justa, salto alto,
e esperam impacientes a aposentadoria
para enfim, declarar seu amor pela poesia.

Aos entraram na fila errada
e estão neste mundo por engano
só para diversão dos deuses:
Não escrevem, não cantam,
não esculpem nem declamam.
Mas sentem, lêem, amam e acolhem
anonimamente a poesia em seus ventres.


Um brinde a todos os recipientes!

(poema de Marilda Confortin, classificado no Concurso Nacional de Poesias Lindolfo Bel)
REUNI ALGUNS DOS MEUS POETRIX ILUSTRADOS NUM PEQUENO VÍDEO.ESPERO QUE GOSTEM


TRIMURAL NASCENTES DO IGUAÇU
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Pare, eu confesso!
Apesar de latir, não mordo
como o Cachorro-Louco.
Não me bote na coleira.
Sou uma inofensiva poetisa.
Por favor, não me transforme em pedreira.

Pare, eu confesso!
Apesar do carma dos olhos azuis,
não sou Helena Kolody,
aquela professorinha querida,
que tanto amou a poesia
que não conseguiu amar mais ninguém.

Pare, eu confesso!
Sou só uma indefesa mortal,
condenada a sofrer de prisão de versos,
urticária na alma e incontinência verbal.

Sou portadora desde nascença
de uma doença literária crônica,
um distúrbio compulsivo obsessivo poético
causado por uma discrepância lingüística
que inflama a verve, queima o peito,
estufa o ego, altera a hipérbole
e enche o sacro santo dos amigos.

E não sou a única, Meritíssimo.
Aqui mesmo, nesse extato momento
existem vários sujeitos ocultos que
se provocados,
cometerão eufemismos coletivos,
cuspirão metonímias
e se esvairão em hemorragias
de metáforas implícitas.

E ao contrário do que dizem os críticos, Meritíssimo,
a farmacologia ainda não inventou uma antítese eficaz,
capaz de combater essa catacrese catastrófica.

Todos dias, desde que existe o homem,
aparece uma criança, um adolescente normal,
um pai ou mãe de família tradicional,
que de repente se depara com uma noite enluarada
e começar a fazer frases rimadas com nua, sua, rua
e a sentir-se como se fosse
o primeiro homem a pisar na lua.

Não condene os artistas, senhor Juíz!
Imagine que triste
um mundo sem poesia, sem magia,
sem música, sem atores, sem pintores,
sem enfeites, sem deleite, sem alegria…

Naturezas mortas

Sumo, somes,
secas, seco,
escoas, escôo,
ecoas...

Escorres, escorro.
só corres, só corro.

Socorro!

Somos somente ecos
do que fomos.

Ah, essa maré de dó, marré de si!
pobre de ti, pobre mim
pobre dessa poesia pobre.